"Preparas um cerco, ou quê?"
"Hã?", Eduardo não tinha bem percebido a pergunta, nem sabia a que se referia o ruivo que se dirigia a ele, encostado na ombreira da porta do quarto contíguo ao seu, com um cigarro pendurado nos dedos.
O interlocutor tinha a estatura de Eduardo, mas era muito menos corpulento. Tinha os cabelos desgrenhados, uma camisa aos quadrados vermelhos, como os lenhadores canadianos, aberta sobre uma t-shirt preta que dizia "Nevermind". As calças de ganga eram velhas e os ténis rasos estavam sujos. Mas tudo isso dava-lhe um ar cool. Eduardo sentiu vergonha da sua camisa aos floreados à Parker Lewis, do seu cabelo bem cortado e das suas botas-ténis LA Gear, cuja lingueta Eduardo gostava de deixar fora das Lewis, para "mandar estilo". Manias que trazia do liceu.
A ponta do cigarro, que o ruivo parecia ter esquecido, desfez-se e caiu no chão do corredor, sem que ele desse por isso. Ou se deu, não se importou. Mas o seu olhar tinha um brilho surpreendentemente inteligente, e a sua voz um tom amistoso. E foi isso tudo, que desde logo, agradou a Eduardo.
"Vi os teus velhos trazerem-te víveres suficientes para aguentares um inverno nuclear... pensei que tinhas medo de morrer à fome ou ias preparar-te para um estado de sítio...", gracejou o outro.
"Bem, sabes como são os velhos...", disse Eduardo, encolhendo os ombros e rindo-se.
"Ya, meu...os meus são iguais", reconheceu o outro, numa gargalhada. "Foi por isso que eu escolhi a universidade mais distante que pude lá da terrinha dos meus."
"Vens donde?", quis saber Eduardo.
O outro levou o cigarro aos lábios, puxou pela beata demoradamente e olhou Eduardo por entre os cabelos caídos na cara. "De Biarritz. E tu?"
"Do Luxemburgo?"
"Luxemburgo, hein?", admirou-se o ruivo e soltou um assobio enquanto expelia o fumo. "O país dos bancos, o paraiso fiscal, não é?"
"É um paraíso fiscal para quem não vive lá! Pelo menos é do que os meus velhos se queixam quando estão a preencher a declaração de impostos!"
"Eh, eh, pois! E tu, és... luxemburguês? Conheci uns luxemburgueses o ano passado, em Direito, e tinham uma pronúncia diferente da tua!"
"Na verdade, sou português?"
"Portuguéche?", admirou-se ainda mais o outro, forçando o som das últimas sílabas.
"Pois é! ... Ninguém é perfeito! Há os que têm sorte e nascem ...portugueses. E depois há os outros. Eh eh...", riu-se Eduardo.
"Ya...", lançou o outro numa gargalhada. "Pareces bacano, meu. Bem-vindo à Robertsau. O meu nome é Nicholas, mas todos me tratam por Nick", e estendeu-lhe a mão.
"Prazer Nick! Chamo-me Eduardo", disse este, pronunciando o seu nome à portuguesa, enquanto apertava a mão estendida.
"Edouuardôô?...Hum, posso chamar-te Ed? É mais simples para mim."
"Sim, claro."
"Ed, isto é o começo de uma bela amizade", riu-se o ruivo com a beata no canto da boca e enquanto desviava os cabelos da cara.
"Pois, pois, aposto que dizes isso a todas", ripostou Ed.
"Eh, eh...Já gosto de ti, sabes, meu. Verdade. Anda daí, ia agora ter com uns amigos e assim ficas a conhecer o pessoal."
20090819
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