Aquele dia era o qual pelo que mais havia ansiado e, no entanto, naquele preciso instante, sentia que o controlo ainda lhe escapava. Sentia-se inane, anímico, apartado de algo que não sabia bem definir, como se fosse o mero espectador do seu próprio dia.
Eduardo olhou pela vidraça a manhã lá fora, serena e quieta, luminosa. Outubro tinha começado brando, com esporádicas manhãs solares, como se quisesse prolongar Setembro. Ele queria sentir-se como a manhã, mas não conseguia apropriar-se dela. Sentia-se agitado e o vai-vem da mãe no seu quarto não ajudava a acalmar o seu estado mental.
"Onde é que queres que arrume isto?", lançou a mãe ao passar por ele como uma rajada de vento que tivesse entrado pela porta aberta, com uma caixa em cartão cheia de mercearias nos braços.
"Mãe, eu não lhe tinha dito que não era preciso trazer nada disso... há um supermercado mesmo aqui ao lado".
A frase começara com convicção mas estompara-se nas últimas sílabas. Ele sabia que não valia a pena lutar contra aquela força viva da natureza que aquela mulher sempre mostrara ser. E ainda mais desfazado se sentia por sempre ter sido uma criança calma, sem histórias, quase demasiado tranquila, quase amorfa. O "menino-bolha" pensava de si próprio, em alusão a um filme dos anos 1970 com John Travolta. Mas enquanto a deficiência da personagem interpretada por Travolta era física, a sua era interna. Como filho único, a mãe havia-o sempre protegido exageradamente. Do mundo e de todos.
Mas até naquele dia, primeiro e glorioso salto para a independência, que ele desejara ardentemente anunciador de promessas novas, a mãe insistira em acompanhá-lo até à residência universitária Robertsau, em Estrasburgo, onde passaria os próximos quatro anos.
Pelo menos, era assim que ele tinha planeado o seu calendário a médio prazo. Matriculara-se na Faculdade de História com a ambição de um dia vir a ser arqueólogo. Também gostava de Literatura, aliás tinha começado a escrever um romance no Verão, mas sempre considerou o Curso de Letras Modernas como a melhor maneira de acabar a dar aulas. E nem queria pensar nisso. Não que ensinar lhe desagradasse, mas era-lhe insuportável a ideia de ser um mau professor e de torturar gerações inteiras de jovens, como muitos docentes lhe tinham feito a si. Considerava que para exercer aquela profissão ele não reunia as três qualidades com que sempre avaliou os seus próprios professores: vocação, talento de ensinar e... paciência.
E, além disso, acreditava então, erradamente teve de admitir muitos anos mais tarde, que a literatura não se ensina. Um escritor forja-se, sempre creu, nasce com os autores que o despertam para a vida, os que ama e os que detesta, um romancista alimenta-se das suas próprias vivências e errâncias.
"Assim não precisas de comprar estas coisas e é já esse dinheiro que poupas. Sabes bem que te ajudaremos naquilo que pudermos. Se não fosse a bolsa, não tinhas podido vir estudar e nós não tinhamos as posses. Portanto, gasta bem o dinheiro da bolsa e ...", avisava a voz materna.
Eduardo já não escutava. Já conhecia a ladainha. Assim que soube que a bolsa lhe tinha sido atribuída, explicara pacientemente à mãe que a bolsa chegava para pagar o aluguer moderado do quarto universitário, as despesas correntes e, pelas suas contas e com alguma sensatez nas expensas supérfluas, ainda sobraria algum. Mas a mãe, como sempre, mostrara-se super-protectora e trouxera-lhe compras que nem caberiam numa dispensa que aquele quarto de dez metros quadrados não tinha.
20090820
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário